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Aniversário do bairro-conceito

Jornal do Brasil, 21/jul

Às vésperas de completar 90 anos, o Leblon é jovem. Um dos bairros mais novos da cidade, o quadrilátero imprensado entre Gávea, Lagoa, Ipanema, Vidigal e o Atlântico descreveu com sua história uma vocação de oásis de paz, de conversa, de chope e de charme. Desta terça-feira a domingo, o Jornal do Brasil se dispõe a desvendá-lo.

Quando chegar o domingo 25, esse nonagenário ainda não terá a carga cultural que Ipanema já traduziu em verso e prosa no mundo, assim como não terá ensaiado nenhuma escola, como as que consagraram Tijuca, Vila Isabel e Madureira. Não será identificável por um marco geográfico absoluto, como a Lagoa, não apontará os futuros, como a Barra da Tijuca, nem traduzirá em si conceitos socioeconômicos tão contraditórios de forma tão contundente como a metropolitaníssima Copacabana. Mas ainda assim, será o Leblon, uma identidade que ecoa por todo o Rio como algo que faltava para a compreensão que temos da cidade.

Eram 46.670 habitantes, segundo o censo de 2000 do IBGE, mas hoje há muito mais passantes, passageiros e passistas evoluindo nesse conceito de 215 hectares. Um quilômetro e 300 metros de faixa de praia. Uma concentração que torna fácil esbarrar com um Chico Buarque correndo pelo calçadão, beber um chope ao lado de uma Luana Piovani, ver o governador Sérgio Cabral Filho sair para trabalhar. Mas não são apenas os figurões que fazem o Leblon. Quando existimos naquele torrão, somos todos VIPs. Os mendigos o sabem, e, dizem, costumam ser mais marrentos lá.

Os moradores da Cruzada São Sebastião, gente da estirpe de um craque mundial como Adílio, confirmarão essa ideia. No Leblon, mais do que falta de interesse,'chega a ser desinformação grave não saber o nome do garçom que lhe serve o chope no Bar Jobi (É o Paiva? Ou é o Cícero?), ou ignorar que Alaíde já não frita mais seus croquetes no Bracarense e sim no seu novo bar na Dias Ferreira, às margens da Avenida Bartolomeu Mitre.

Eis talvez a grande contribuição que o Leblon deu ao Rio: transformou a vida de bairro, a vida mais cotidiana e comezinha, em uma coleção de celebridades e eventos máximos, em que até um suco de tangerina se torna um acontecimento a ser celebrado.

Cenário de novela

O subúrbio carioca pertenceu ao teatro de Nelson Rodrigues. Uma louca e boêmia Copacabana ganhou as crônicas de Antonio Maria e os romances de Sergio Sant'Anna e João Paulo Cuenca.

Nada mais justo que o Leblon um dia se enxergasse em criações dramatúrgicas; isso se deu no tempo certo, com o surgimento da TV.

É de um capricho monstruoso que o Leblon tenha se tornado a capital carioca das novelas, muito por conta das mãos do escritor Manoel Carlos.

Explico: ver atores e atrizes tomando café ou brincando com as crianças em parquinhos fica mais verossímil na Praça Atahualpa ou no Baixo Bebê, onde já os vemos frequentemente sem precisar dos televisores. São os personagens que conhecemos no lugar onde esperamos que eles estejam. O anonimato neo-realista ficaria esquisito por ali.

E mesmo coberto e recoberto por símbolos de prosperidade - pense, ainda há o Alto Leblon, como uma metáfora ensimesmada desse conceito, ainda é democrático em sua praia, também se vê cercado de criminalidade, convive com descasos municipais, e se aflige com a modernidade.

As semelhanças e as diferenças que o Leblon guarda com o Rio que ajudou a definir serão analisadas pelo Jornal do Brasil até domingo, com a ajuda de seus moradores, visitantes, turistas, transeuntes e trabalhadores. Todos eles, sem exceção, VIPs.

Crescimento comercial ajuda, mas também causa preocupação

Elevado à categoria de bairro da moda, após as noitadas de Cazuza e companhia no Baixo, nos anos 80, e as novelas de Manoel Carlos, nesta década, o Leblon cresceu comercialmente para o bem e para o mal na opinião de moradores antigos e líderes comunitários que se preocupam com seu adensamento e seu encarecimento, ao mesmo tempo em que gostam de não precisar mais sair do bairro para fazer determinados tipos de compras.

- Hoje, existe um espaço para grandes grifes que passaram a apostar mais no Leblon, o que se viu principalmente a partir do remodelamento do Rio Design Center, que deixou de ser um shopping direcionado só para decoração e da abertura do Shopping Leblon, além de lojas de rua - enumera Evelyn Rosenzweig, presidente da Câmara Comunitária do Leblon.

Outra diferença notável, na avaliação dela, foi o aumento do preço dos imóveis, desde que se mudou para o Alto Leblon, há 30 anos.

- Na época, escolhi morar no Alto Leblon, por ser barato em relação aos outros lugares onde procurava apartamento, como o Jardim Oceânico (na Barra da Tijuca). Hoje em dia, isso se inverteu e apartamento que custava o equivalente a US$ 100 mil, hoje sai está em US$ 500 mil, o que também reflete uma melhora em infraestrutura, que nós fizemos, colocando ônibus comunitário - acrescenta Evelyn, que fechou um salão de beleza para se dedicar "exclusivamente ao Leblon", e se resigna com o trânsito atual:

- Comércio bom sempre atraiu carro, não tem jeito.

Augusto Boisson, presidente da Associação de Proprietários de Prédios do Leblon, atribui o aumento no tráfego ao bairro ter virado "um local de passagem":

- Com o crescimento em direção à Barra, hoje temos engarrafamentos, pelo menos, das 15h às 20h todos os dias, em ruas que, antes, tinham um trânsito intenso, mas normal, como a Avenida Bartolomeu Mitre - protesta.