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Subsídio verde

O Globo, 26/jul

Dez por cento de casas e edifícios construídos em Nova York neste último ano têm telhados verdes. Esse é o primeiro resultado - e, segundo especialistas, muito bom - da lei aprovada há um ano, dando desconto no imposto predial a quem plantar jardins na cobertura.

A medida é válida para o Rio? Segundo o secretário de Meio Ambiente e vice-prefeito do Rio, Carlos Alberto Muniz, apesar dos efeitos da crise econômica sobre a arrecadação, o assunto está em estudo. São Paulo, por sua vez, já tem um projeto de lei neste sentido.

Graças à nova lei, Nova York ganhou, em um ano, pedidos de licenciamento para 87,7 mil metros quadrados em coberturas verdes - quase 11 Maracanãs.

Os responsáveis por essas obras terão descontos no pagamento de impostos até o valor de US$ 100 mil por ano. No projeto de lei de São Paulo (115/2009), fica determinado que os novos condomínios com mais de três unidades agrupadas verticalmente deverão implantar um telhado verde. Mas não há incentivo financeiro.

Os paulistanos, no entanto, têm um bom exemplo: no Edifício Matarazzo, sede da prefeitura, está o maior telhado verde da cidade. São 300 metros quadrados de várias espécies da nossa flora, inclusive pau-brasil. É verdade que o projeto do jardim suspenso é muito anterior à instalação da administração municipal. Foi criado há 50 anos por Walter Galera, administrador do edifício, quando ele era propriedade da família Matarazzo.

No Rio, é difícil achar telhados verdes. O primeiro, provavelmente, foi o da Ecohouse - casa sustentável na Urca, idealizada pela arquiteta Alexandra Lichtenberg em 2003.

Em setembro passado, a Lanchonete Panorâmica, quiosque de lanches na Central do Brasil, adotou a solução para atenuar o calor do local. O projeto é de Matias Baumann, e a instalação, da Ecotelhado, empresa gaúcha especializada na montagem desses telhados. Além disso, a construtora Ecoesfera está erguendo três prédios com o sistema (um no Recreio e dois em Jacarepaguá).

- O telhado verde é mais conhecido em países da Europa, como na Alemanha, onde foi instalado em cerca de 15% das residências e edifícios - diz o engenheiro agrônomo João Manuel Feijó, sócio da Ecotelhado e presidente da Associação Telhados Verdes Brasil (ATV Brasil).

A primeira vantagem dos telhados verdes, continua Feijó, é que eles funcionam como isolantes térmicos, reduzindo em até 20% o custo de resfriar os imóveis abaixo. Além disso, a vegetação regula o escoamento da água da chuva: - Com o telhado verde, a água da chuva fica, em parte, retida nas próprias plantas.

A Ecotelhado é, ainda, a fornecedora do sistema que será instalado num projeto-piloto no Morro Dona Marta, em Botafogo.

A Fundação Parques e Jardins (FPJ), da Secretaria de Meio Ambiente do município do Rio, contratou a empresa para plantar telhados verdes, a princípio, numa capela e em duas residências. Amanhã, inclusive, haverá uma apresentação interna do projeto.

Metro quadrado a partir de R$ 77

- Estamos procurando trazer esse assunto para que a sociedade discuta. Depois, adotaremos telhados verdes em obras do PAC nos morros da Mangueira e Babilônia. Essa é só uma parte de um conjunto de soluções em discussão para que tenhamos uma legislação de uma cidade sustentável. No programa "Minha casa, minha vida", por exemplo, resolução conjunta das secretarias de Meio ambiente, Urbanismo e Habitação determina que os empreendimentos adotem energia solar e hidrômetro individual - diz o secretário municipal.

Os especialistas dizem ainda que a alternativa sustentável, hoje, não sai mais tão cara quanto há alguns anos: - O preço de implantação do sistema varia, hoje, entre R$ 77 e R$ 150, o metro quadrado, de acordo com as espécies de plantas escolhidas.

Esses são valores aproximados ao de um telhado de fibrocimento, que é instalado sobre a laje para impermeabilizar e garantir conforto térmico - conclui Feijó, da Ecotelhado.

Campanha recomenda cor branca nos telhados

Apesar de a Ecoesfera ter incluído, no ano passado, o telhado verde em alguns de seus projetos - inclusive em três no Rio - o presidente da construtora, Luiz Fernando Lucho do Valle, diz que uma outra solução vem sendo estudada: as coberturas pintadas de branco.

Ele diz que, embora o telhado verde tenha vantagens, como auxiliar no microclima das cidades - atraindo pássaros, por exemplo - no caso de prédios, ele não é prático:

- No telhado, há edículas e antenas, o que dificulta a criação de jardins. A pintura branca, que reflete a luz do sol, também reduz o aquecimento.

E, para que o telhado verde deslanche, é preciso ter incentivos governamentais. Como isso não acontece, há poucas empresas que adotam o sistema. Nosso fornecedor é do Sul. Além de o gasto ser alto, a queima de combustível da viagem é um contrassenso.

Segundo pesquisadores da Universidade de Berkeley (EUA), se 30% a 40% dos telhados ou calçamentos do mundo forem pintados com a cor branca, a temperatura do planeta poderá baixar até 1° C. Os números expressivos motivaram a campanha One degree less (Um grau a menos), promovida no mundo todo - no Brasil, é encabeçada pelo escritório da ONG Green Building Council.

A alternativa é mais simples. Mas a arquiteta Alexandra Lichtenberg, da Ecohouse, ainda defende os telhados verdes: - Se o investidor fizer os cálculos, vai ver que compensa - diz ela, que está, agora, plantando bananeiras na sua laje.