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Dificuldades não afastam o amor

Jornal do Commercio, 28/jul

Dificilmente quem passa hoje pela zona portuária do Rio de Janeiro se sentirá atraído a viver em algum dos muitos casarões que se espalham por suas ruas. O problema não está exclusivamente nas condições ruins do casario. Em geral, as edificações estão em péssimo estado de conservação, caindo aos pedaços, sem contar alguns que possuem apenas fachadas com barracos e casebres escondidos ao fundo. A situação não seria melhor se prédios de classe média fossem construídos no lugar dos muitos armazéns e galpões da região, dizem especialistas. O problema é mais grave e mais difícil de ser solucionado. Falta qualidade de vida na zona portuária do Rio de Janeiro.

Os moradores se enchem de esperança ao ouvir falar do projeto Porto Maravilha, da Prefeitura do Rio, cujo objetivo é transformar a área em um lugar com condições dignas para quem mora e frequenta suas ruas. Os planos do prefeito Eduardo Paes incluem cara nova para a Praça Mauá, com estacionamento subterrâneo, reforma dos casarões, por meio do programa Novas Alternativas, reurbanização do Morro da Conceição, atração de empresas para a região e criação de espaços culturais, como o Museu do Amanhã e a Pinacoteca do Rio.

A zona portuária já viveu dias melhores. Contam os que moram nos bairros da Gamboa, Saúde e Santo Cristo há algumas décadas, que a região não era abandonada como atualmente. "As ruas vivam cheias de gente e bem cedo, no horário em que os adultos iam trabalhar, era bonito ver o povo passando pela nossa janela", relembra a dona de casa Maria Clara Gonçalves, moradora da Saúde há 45 anos. "Meu pai era médico e trabalhava no Hospital dos Servidores. Por isso, nos mudamos para cá. Tínhamos um bom padrão de vida aqui, mas atualmente a situação do bairro está precária."

Maria Clara conta que nos últimos 20 anos viu muitos de seus vizinhos abandonarem o bairro. "Era gente que estudou comigo, que frequentava a mesma igreja que eu. Quase todo mundo se foi. Os poucos que ficaram ainda acreditam que pode melhorar, mas aposto que iriam embora se também tivessem essa chance", contou.

A dona de casa lembra-se, com lágrimas nos olhos, do tempo de menina, quando o bairro não oferecia os riscos de hoje. "Nós corríamos pelas ruas. A criançada soltava pipa, jogava bolinha de gude, bola de meia, subia nas árvores. Minha mãe precisava ficar aos berros na rua para que eu voltasse para casa para jantar. Meus filhos ainda pegaram um pouco disso, mas eu pedia para terem cuidado com as companhias. Hoje em dia, não deixaria meu neto ficar pela rua."

A segurança é um dos pontos que mais preocupa os moradores. A assistente social Regina Sá, que mora no Morro da Conceição, afirma que vive em situação um pouco melhor, mas teme por quem mora em outras áreas da zona portuária. "Aqui no Morro da Conceição não tem muito problema. Costumo dizer que vivemos como no século retrasado. Tudo é muito tranquilo, o pessoal fica muito na rua e tem até quem deixe as portas abertas no final da tarde. Nos outros bairros da região é bem pior. Uma amiga minha mora perto de uma comunidade e tem muito medo dos tiroteios e dos assaltos. Tem dias que ela vem me visitar e até pede para dormir aqui em casa se fica muito tarde."

Regina lamenta a realidade da zona portuária. "Isso aqui era lindo. Esses casarões são uma coisa maravilhosa. Hoje eu ando de ônibus pela Rodrigues Alves e me bate uma tristeza.

Parece que os governantes largaram esse pedaço do Rio de lado, parece que ninguém via o que estava ocorrendo aqui. A avenida Rodrigues Alves é escura, é hostil. Tem um monte de galpões que ninguém sabe se está abandonado ou se está invadido, se tem gente trabalhando ou se está caindo aos pedaços. É muito triste", disse a assistente social.

Nascido e criado na Saúde, o advogado Cléber Salgado decidiu abandonar a zona portuária no início da década de 1990. Morador do Méier atualmente, Salgado disse que sua partida era inevitável. "Minha mulher já não aguentava mais a Saúde. Ela me deu um ultimato. Ou nós nos mudaríamos, ou ela se mudaria com meus filhos. Fui coagido a fazer a vontade dela", brincou o advogado. "Na época eu não queria me mudar. A Saúde e a Gamboa eram a minha vida. Saí de lá muito contrariado, mas bastou uma semana no Méier para ver o quanto a qualidade de vida da zona portuária é baixa. Nem estou falando de como é bom morar na Zona Sul, estou falando do Méier."

Apesar de ter se mudado, a relação de Salgado com a zona portuária ainda está longe de terminar. "Meu apartamento ainda está lá. Já tentei vender, já tentei alugar e nada. Estou vendendo o imóvel por quase a metade do preço que ele valeria se ficasse em qualquer outro lugar da cidade."

O advogado contou que seu imóvel ficou alugado por 12 anos depois que ele se mudou, mas há seis anos ele não consegue inquilino ou interessado em adquirir o apartamento. "Eu estou arcando com as despesas. Pago condomínio, as contas, impostos. A maioria dos meus vizinhos não está pagando seus impostos, mas eu pago tudo em dia. Meu corretor disse que a situação vai melhorar, que com a revitalização o preço vai subir. Por enquanto, só estou vendo crescer a procura por imóveis comerciais."

Para ele, não está descartada a possibilidade de voltar à vizinhança onde cresceu. "O que eu mais quero é uma oportunidade para voltar, mas para isso a região tem que melhorar muito. Eu não votei no Eduardo Paes, mas me considero o principal aliado dele neste projeto. Há anos que ouço falar que as coisas iam melhorar, mas essa é a primeira vez que eu realmente acredito que isto é possível", disse.

O taxista António Nascimento tem muito de sua história ligada ao porto do Rio de Janeiro.Nascido em 1951 em Portugal, ele veio para o Brasil aos quatro anos de idade. Sua porta de entrada foi o porto do Rio, onde seu navio atracou na véspera do Natal de 1955.

Em seguida, Nascimento foi morar no interior de Minas Gerais, onde seus pais conseguiram trabalho. Ao completar 15 anos, voltou para o Rio, com um sotaque que misturava o acento de sua terra natal e do estado em que vivera na última década. Após alguns meses na casa da tia de um amigo, se mudou para o bairro do Santo Cristo, onde vive até hoje.

"Santo Cristo é um bairro muito bonito e muito prático, pois está perto do Centro. Este poderia ser o melhor bairro do Rio, se os governantes não tivessem abandonado os moradores daqui. Quando me mudei para cá, vim porque não tinha para onde ir. Nos últimos anos, pensei várias vezes em me mudar, mas prefiro acreditar que os dias de abandono acabaram", comentou Nascimento.

Como taxista, ele cruza diariamente diversos bairros do Rio de Janeiro. Nascimento se diz encantado com as praias de Ipanema e do Leblon, com a beleza do Alto da Boavista e com a praticidade dos condomínios da Barra da Tijuca. Ele, porém, não quer trocar a zona portuária por nada. "A única vez em que quis me mudar foi para uma casa que vagou na mesma rua", contou rindo.

Apesar da paixão pela região, Nascimento se queixa da qualidade de vida no Santo Cristo. "As ruas estão em péssimo estado. Temos que fazer um ziguezague para fugir das crateras. Isto quando não somos obrigados a escolher em qual buraco vamos cair, pois é inevitável. Eu sou obrigado a pagar R$ 300 por mês para estacionar meu carro, pois não podemos parar em lugar nenhum", afirmou. "As escolas são péssimas. Estou pagando colégio particular para meus netos, pois não quero que eles estudem aqui. Chega a ser engraçado morar em uma área com tantos hospitais e ser obrigado a apelar para hospitais particulares em bairros mais distantes."