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No meio do caminho tinha uma árvore

O Globo, Júlia Dias Carneiro, 13/set

A derrubada de árvores costuma marcar o avanço das cidades. O verde é tirado de cena para abrir terreno para construções. A uma semana do Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, fomos atrás de projetos arquitetônicos que fazem o contrário: planejam reentrâncias na fachada, buracos no teto e aberturas no piso para permitir que uma árvore que passou as últimas décadas no terreno continue firme em seu lugar.

O arquiteto Sergio Conde Caldas projetou dois prédios com essa característica para a Concal. Na Avenida Lineu de Paula Machado, no Jardim Botânico, o edifício Conde d'Taunay tem um pau-rei que acompanha os 25 metros da fachada de cima abaixo, tão rente à construção que as varandas de cada andar têm uma reentrância para acomodar o tronco. A árvore é cinco metros mais alta que o prédio, garantindo sombra e uma copa de árvore privativa a quem mora na cobertura. No Résidence Belle Vue, no Alto Leblon, Caldas desenvolveu o projeto de forma a manter as árvores mais antigas do terreno.

Uma enorme mangueira atravessa um deque construído alguns metros acima da sua base, numa área de lazer externa. Ao redor de uma paineira centenária, fica o quintal de um apartamento térreo, e sua copa chega a alcançar o apartamento da cobertura. Duas árvores mantidas na separação entre dois blocos aumentam a privacidade entre os apartamentos. E reentrâncias nas varandas numa lateral do prédio abrem alas para uma jaqueira.

- O legal é que cada morador humaniza o pedaço de árvore na sua varanda como quer. Uns penduram casa de passarinho, outros põem bromélias - conta ele, que estudou a melhor forma de adequar as árvores ao projeto para tirar partido do verde.

Na Casa Cor deste ano, dois arquitetos receberam espaços com árvores centenárias do Jockey no meio do caminho. Tanto Sergio Paulo Rabello, que projetou uma garagem, quanto Ana Maria Índio da Costa, com seu spa, aproveitaram as árvores para dar mais charme aos ambientes.

Sergio Paulo ficou surpreso ao saber que sua área na Casa Cor tinha uma enorme castanheira, mas logo transformou o que poderia ser um obstáculo no centro do projeto da sua garagem.

- Parti da árvore para planejar o restante da minha arquitetura. Hoje, na Zona Sul, é tudo prédio, apartamento, uma selva de pedra. Quando você tem a chance de trazer a natureza para dentro de casa, tem que tirar partido - diz.

Ao redor da árvore, o arquiteto manteve uma abertura de 1,60 metro quadrado, tanto no piso de ônix branco quanto na cobertura de telhas metálicas, por onde entram luz natural e água da chuva. Para não molhar o interior, instalou placas de vidro de cima a baixo ao seu redor. A raiz foi coberta por pedriscos naturais, e o tronco, ornamentado com orquídeas, "para sofisticar e dar cor à árvore". Ao seu lado estão uma moto e um carro BMW.

Perto dali, também na área externa da Casa Cor, a árvore no spa de Ana Maria Índio da Costa parece ter nascido para o ambiente. Ela está em harmonia com a parede de orquídeas, as cadeiras da piscina e a área de massagem, e ganhou banquinhos para que se aproveite a sombra.

A ideia não é privilégio de mostras de decoração, como comprova o projeto de Ana Lúcia Jucá para uma casa em Angra dos Reis. O terreno tinha uma palmeira enorme, e a arquiteta aproveitou para construir um gazebo ao seu redor, com um deque de peroba e um nicho na cobertura para a árvore passar.

- O espaço é totalmente aberto dos lados, só tem uma cobertura para proteger da chuva. A palmeira deu mais vida. De dia, faz um pouco de sombra. À noite, os refletores dão um efeito lindo. Ou seja, ela foi parceira, né? - brinca a arquiteta, defendendo que se façam adaptações para manter as árvores sempre que possível.

A árvore também pode dar vida a grandes empreendimentos, como ressalta Marcelo Parreira, da RJZ/Cyrela. Em parceria com a Klabin Segal, a construtora ergueu o Grand Life Botafogo na Rua Assunção, em Botafogo, com duas torres e 72 unidades. Entre ambas, foi deixado um recorte para manter uma árvore bem na entrada do prédio.

- Ter árvores de porte num empreendimento é cada vez mais raro. Mas olhar para fora e enxergar o verde é uma coisa importante para o carioca, que precisa dessas fugas visuais-ressalta.


CAPA
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PAISAGISMO
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