Administradores que fogem aos padrões, mas que acabaram conquistando os moradores
O Globo, Flávia Monteiro, 04/out
Foi preciso muita insistência para que Jane Di Castro assumisse a função de síndica do Edifício Kansas, em Copacabana. Era preciso conciliar a tarefa com os shows mundo afora e os afazeres de seu salão de beleza, na sobreloja do prédio onde mora há 15 anos. Além disso, ela sabia que teria que enfrentar o preconceito de alguns. Jane, de 63 anos, é atriz, cantora, cabeleireira e, para surpresa de alguns vizinhos desavisados, travesti. Hoje, está no quarto mandato como administradora do prédio e diz, orgulhosa, que conquistou uma vitória.
- Nunca ninguém tinha visto um travesti assumir um condomínio. Nos anos 70, eu era proibida de entrar maquiada dentro do meu próprio edifício. É uma conquista e tanto - diz.
Aceito o desafio, Jane lançou mão de sua experiência na montagem de shows e começou a sua gestão dando um banho de loja no edifício, que tem 12 andares e 78 apartamentos:
- O prédio estava caindo aos pedaços. Não fazia jus à sua localização, em frente ao Copacabana Palace. Comecei por uma grande maquiagem, porque visual é tudo. A portaria foi pintada de marfim, minha cor predileta, e ganhou quadros, sofá e arranjos de flores. Proibi a circulação de cachorros sem focinheira e acabei com o oba-oba de gringos que insistiam em trazer garotas de programa para os apartamentos alugados por temporada. Coloquei ordem no caos - conta.
Gestão baseada em livro de auto-ajuda
Dos funcionários, Jane exige uniforme impecável e uma postura exemplar diante dos moradores. Quando precisa, ela mesmo bate ponto na portaria. Só não se mete quando o assunto é briga de vizinho. E, quando é preciso, desce do salto:
- Exijo respeito. Quando as pessoas me tratam com educação, sou a Jane Di Castro. Mas para aqueles que apelam para a ignorância, entra em cena o Luiz de Castro. Nessas horas, meu lado masculino aflora - brinca.
Assim como Jane, há muitos síndicos por aí que fogem dos padrões e não relutam em recorrer a métodos pouco convencionais de administração de condomínios. E que, mesmo considerados excêntricos, acabam conquistando o reconhecimento dos moradores.
É o caso do síndico Moysés Alves, de 59 anos. Nos quadros de avisos espalhados pelo edifício que administra - o Barão de Pinhal, em Piedade, com 128 apartamentos - provérbios misturam-se às dicas de como manter o condomínio limpo. Dentro do elevador, pregado à parede, está um papel com os sete segredos para o gerenciamento do estresse, segundo o autor americano Rick Warren: identificação, dedicação, organização, concentração, delegação, meditação e relaxamento. Cada um deles exerce influência direta na gestão do síndico, que é músico. Mas o que dita mesmo a sua administração é o livro "Uma vida com propósitos", do mesmo autor.
- Eu recomendo a leitura do livro a todos os moradores. Brinco com eles dizendo que, após a leitura, que deve ser feita em 40 dias (um capítulo por dia), quem não gostar recebe o dinheiro de volta. Em todos os avisos do prédio, há citações de trechos do livro. Hoje, quando assino um comunicado com "a administração", os moradores reclamam. Eles se acostumaram com uma assinatura que inventei: "Moysescompropósitos" - conta, orgulhoso.
Bem-humorado, Moysés garante que o livro exerce uma influência positiva sobre as pessoas. Foi depois de receber uma carta sua com trechos do livro, conta, que o então prefeito Cesar Maia cedeu a seus apelos para que a rua ganhasse uma galeria de águas pluviais.
- Rick Warren diz que nada acontece até que haja um líder. Até Martin Luther King fazer o célebre discurso "Eu tenho um sonho", o movimento dos direitos civis não era nada. Depois que o presidente Kennedy lançou o desafio de chegar à Lua antes do final da década de 60, o homem o fez. Ou seja, liderança é fundamental, desde que tenha um propósito - explica o síndico.
Dublê de psicólogo e investigador
Há oito anos à frente do condomínio Iaraquã, um dos maiores de Campo Grande - são 25 blocos, com 16 apartamentos cada - Carlos Antônio Bottino precisou adotar medidas enérgicas para acabar com a baderna diária promovida por adolescentes em frente à portaria:
- Mandei buscar 20 litros de óleo queimado numa oficina e passei o combustível nos muros, paredes e bancos, deixando o lugar imundo e malcheiroso. Cheguei a receber ameaças porque havia uma garotada barra pesada. Mas a estratégia funcionou e, dias depois, instalamos uma grade, pintamos a fachada e plantamos palmeiras imperiais - conta ele, informando ainda que, aos poucos, foi se aproximando desse jovens. - Eles acabaram sendo meus aliados na batalha para pegar um ladrão de bicicletas que atuava no condomínio. Ficávamos à espreita, no meio da mata. Demorou seis anos, mas conseguimos pegar o criminoso.
Aos 30 anos, o advogado Felipe Mendlowicz Prado é o garoto prodígio do grupo. Há quatro anos morando no Leblon, ele assumiu a gestão do condomínio com uma missão extra: a de driblar os olhares desconfiados dos vizinhos frente à sua pouca idade e à aparência de playboy.
Ele conta que, no começo, alguns moradores ficaram receosos, achando que ele gastaria a verba arrecadada com futilidades. Mal sabiam que, no prédio onde Felipe morava antes, contrariando o então síndico, conseguiu que os R$500 mil ganhos pelo condomínio numa ação fossem rateados entre os moradores, que ganharam R$ 10 mil cada.