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Prédios escondem perigos

O Fluminense, 17/fev

Os inimigos invisíveis são cada vez mais comuns em prédios comerciais e residenciais. Desde a água que se bebe, passando pelos materiais usados para a limpeza e chegando ao grande vilão: o ar-condicionado. Na década de 80, a Organização Mundial de Saúde (OMS) criou a expressão "Síndrome do Edifício Doente" (SED), doença que se desenvolve em prédios sem janela, que possuem baixa taxa de ventilação externa.

Um edifício é classificado como "doente" quando cerca de 20% de seus ocupantes apresentam alguns desses sintomas em decorrência do tempo de permanência em seu interior. Em alguns casos, a simples saída do local já é suficiente para que os sinais desapareçam. Os principais sintomas apresentados são: irritação dos olhos, nariz, pele e garganta, dores de cabeça, fadiga, falta de concentração e náuseas, entre outros.

Nos Estados Unidos são feitos estudos desde os anos de 1970, quando os primeiros casos de morte foram registrados. No Brasil, o caso mais famoso foi o do ex-ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique, Sérgio Mota, que em 1998 faleceu após ter seu quadro clínico agravado em função de fungos alojados em dutos do sistema de climatização.

"No Brasil não temos números quantificados, mas nos Estados Unidos, levantamentos feitos na década de 90 mostram que o prejuízo econômico para se tratar os funcionários que são afetados por esses problemas chega a mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 2,30 bilhões) por ano. Se for contada a diminuição de produtividade e número de faltas, o prejuízo pode chegar a mais de US$ 60 bilhões (aproximadamente R$ 138 bilhões) ao ano", diz o professor do Departamento de Microbiologia Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Sérgio Fracalanzza.

Nos Estados Unidos, de 8 mil a 18 mil pessoas adoecem todos os anos por conta dos micro-organismos e a taxa de mortalidade é de 5% a 30%.

De acordo com dados da OMS, as causas mais frequentes da SED são: ventilação inadequada (52%), contaminação interior (17%, sendo o cigarro o principal vilão) ou exterior (11%) e ainda microbiológica (0,5%). A maioria dos poluentes, conforme alerta o especialista, vem de fontes internas do prédio, como carpetes, produtos de limpeza e a falta de limpeza nos dutos do ar-condicionado.

O professor da UFRJ lembra que a poluição das metrópoles tende a aumentar e que as novas construções, altas e próximas umas das outras, interfere na poluição do ar.

"Antigamente, as residências tinham grande ventilação. Hoje, não. Porões, sótãos, assim como garagens subterrâneas ou fechadas, fazem mal. Isso acontece muito em shoppings centers: ao sair, há choque de temperatura", ressalta.

Doença agressiva ou evolução de forma lenta

Além do cuidado com ambientes fechados, outros fatores podem ser nocivos à saúde humana.

"São muitos os males causados à saúde pelo amianto. Na maioria dos casos, o que ocorre é o desenvolvimento de placas pleurais, que resultam no surgimento da asbestose (doença evolutiva e degenerativa que não tem cura), a qual pode ocasionar vários cânceres pulmonares", explica o advogado Leonardo Amarante.

Segundo ele, a história mostra que, por muitas décadas, as grandes empresas que utilizavam o amianto em vários produtos sabiam do perigo que a substância representava à saúde das pessoas, mas se calaram. Somente depois que os governos de vários países começaram a analisar essas questões houve algumas mudanças.

Amarante esclarece que a caixa d'água de amianto, muito usada em casas, apesar da possibilidade de levar ao desenvolvimento das mesmas doenças de quem mantém contato com o amianto em outros produtos, não causa tantos riscos.

"Neste caso, a evolução da doença é lenta e silenciosa e leva, em geral, muitos anos. O ideal é não utilizar este tipo de caixa d'água, mas não há motivos para que as pessoas se alarmem, pensando que têm câncer ou asbestose porque utilizaram caixa d'água de amianto por alguns anos. Se houver suspeita, vale a pena realizar uma tomografia", explica o advogado.

ONG defende as vítimas

A Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea) é uma Organização Não-Governamental (ONG) que zela por pessoas que sofrem de doenças originadas pelo amianto.

"Procuramos organizar a sociedade civil na luta pelos direitos dos trabalhadores que foram expostos por anos ao amianto, e pelos direitos dos familiares daqueles que faleceram em decorrência de patologias relacionadas à substância. A Abrea pretende levar esclarecimentos importantes à sociedade", informa Leonardo Amarante.

A utilização de telhas de cimento-amianto foi proibida em prédios do município do Rio de Janeiro, em 1997, pela Lei 2762/97. Também há obrigatoriedade de estampar nos sacos de cimento-amianto os dizeres: "Este produto pode causar danos à saúde".

No caso da SED, há lei que obriga a fiscalização dos ambientes refrigerados. Para envolver danos à saúde coletiva, diversas ações passaram a ser adotadas no País, principalmente após a morte do ministro Sérgio Mota, quando foi criada a Portaria 3.523/98. Esta determina a elaboração de relatório técnico para identificação, controle e limites de tolerância de poluentes.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou, em janeiro de 2003, a Resolução nº 9, que define como ambiente aceitável aquele em que um mínimo de 90% dos ocupantes não apresentem desconforto e sintomas de SED. Contém, ainda, restrição severa ao uso de cigarro em ambientes de uso público e coletivo, prevista na Lei 2.294/96.

Atualmente, a Anvisa trabalha na definição de critérios para ambientes climatizados com fins especiais, como as salas de cirurgia e Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) de hospitais, por exemplo, onde o risco de contaminação pode ser fatal para pessoas com organismo debilitado.

"É extremamente importante que a fiscalização seja exercida", conclui Sérgio Fracalanzza.

Cuidados em casa e no trabalho

Dentro de escritórios alguns utensílios aparentemente inofensivos podem fazer mal à saúde, como odorizador e toner.

"Não se deve manter plantas em ambiente fechado. Elas têm uma flora microbiana própria, além de na terra também haver contaminação. Tudo vai para o ar", explica Fracalanzza.

Em residências também devem ser tomados cuidados: "Toda sujeira é depositada nos móveis, chão e paredes. Passar um pano úmido no chão e não limpar as outras superfícies, inclusive a parede, que deve ser limpa semestralmente, não adianta".

Ele diz ainda que a manutenção das torres de refrigeração dos edifícios deve ser frequente, pois são um grande foco de contaminação do ar. Elas exigem circulação de água, que depois origina aerossol muito grande, e este acaba sendo aspirado pelas entradas de ar do edifício.

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