Login
Senha 

Adesão Débito Automático
Consulte Ações Jurídicas

Pleito absurdo

Folha de São Paulo, Janela, 31/jun

O preço atual do vergalhão de aço utilizado na construção civil no Brasil é 79% mais caro que nos Estados Unidos; 2,55 vezes mais custoso que na Índia e espantosos 3,02 vezes mais alto que na China.

Esta é a conclusão de um estudo publicado pelo engenheiro e professor Luiz Henrique Ceotto, articulista da revista Notícias da Construção, do SindusCon-SP, na edição deste mês. Ele comparou a evolução dos preços de vergalhões de aços ligeiramente diferentes, o CA-50A brasileiro e o ASTM Grade 60 naqueles três países.

A comparação começa em setembro de 2004 e vai até abril de 2009. Com o crescimento da demanda, os fabricantes foram elevando os preços até 2008. Instalada a crise no ano passado, os preços declinaram.

Constatou-se que o Brasil teve o menor índice de aumento de preço do vergalhão no período de crescimento da economia global (53% contra 90% na Índia), mas por outro lado foi o país que teve a menor queda nos preços após o início da crise, de 5%, contra 90% da Índia e da China.

Em todo o período estudado, o Brasil teve o maior aumento residual no preço do insumo (46%), contra os EUA (20%), a Índia (25%) e a China (9%). Se nosso aço para construção já era o mais caro do mundo em 2004, após a crise a diferença aumentou ainda mais!

Como interpretar esses dados a não ser considerando a escassa competição entre as siderúrgicas brasileiras, onde apenas duas empresas dominam cerca de 80% do mercado, indaga o professor Ceotto, para responder: "O caminho da solução talvez seja de natureza mais simples e de implementação imediata -o aumento da competição por meio da importação".

Pois é justamente esse caminho que o Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS) quer bloquear. Em entrevista ao jornal Valor Econômico na semana passada, o presidente do IBS, Flávio Azevedo, afirmou que a situação criada pela queda da demanda combinada com o aumento das importações dos diferentes tipos de aço para o Brasil "é grave e pode ficar mais complicada ainda se alguma medida de proteção do mercado brasileiro não for adotada pelo governo".

Segundo a reportagem, o setor siderúrgico quer a retomada das alíquotas de importação, hoje de 0%, ao nível de 12% para oito tipos de aço, entre os quais os vergalhões da construção. Atender a este pleito seria ir na contramão de tudo o que o mínimo bom senso recomenda para que o Brasil e o mundo saiam da crise.

Se, de fato, as importações de aço vindas da China ingressam no Brasil com "dumping" (preços abaixo do custo da produção), como alega o IBS, então a saída é levar o caso à Organização Mundial de Comércio. Jamais, entretanto, o Brasil deve decretar unilateralmente o aumento das alíquotas de importação, o que prejudicaria o comércio com todos os demais países.

Dificultar as importações de aço significaria levantar um precedente para que a China, por exemplo, retalie nossas exportações de ferro, celulose e soja para aquele país. A alíquota brasileira de importação do aço não só precisa ficar em 0%, como os governos deveriam reduzir o IPI e o ICMS incidentes.