Para-raios: proteção de cima a baixo


Sistema evita que descargas atmosféricas tragam prejuízos a condomínios e especialistas advertem para a necessidade de manutenção constante.

Temperaturas subindo, verão batendo à porta e, na correria para a manutenção de piscinas e áreas externas, sempre muito utilizadas na época mais quente do ano, um equipamento importante às vezes acaba sendo deixado de lado: o para-raios. Escondido no topo do prédio, ele é a parte mais conhecida do Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas, o chamado sistema PDA, que, como o nome diz, tem por finalidade proteger as edificações de raios, evitando incêndios, danos materiais e riscos à vida dos moradores. Mas para que isso aconteça, é preciso que o equipamento seja instalado nas construções para as quais ele é indicado – aquelas com mais de 30 metros de altura – e que a revisão do sistema esteja em dia. Do contrário, acredite, o perigo existe, sim.

O Brasil é o país onde mais caem raios no mundo. São quase 50 milhões deles anualmente, e praticamente metade dos relâmpagos, cerca de 20 milhões, riscam os céus durante o verão. A região mais atingida? A Sudeste, pelo menos nos últimos dez anos, segundo pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) em São José dos Campos, São Paulo. Um raio com várias descargas pode durar até dois segundos, com uma corrente de cerca de 30 mil ampères – o chuveiro elétrico tem apenas 30! – e alguns podem chegar até a 300 mil ampères. Em todo o país são registradas cerca de cem mortes por ano, e o prejuízo fica em torno de R$ 1 bilhão. Razões mais do que suficientes para investir no sistema PDA e proteger o patrimônio de todos.

A norma NBR 5.419 – Proteção de Estruturas contra Descargas Atmosféricas e de Aterramentos Elétricos –, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), é que regula a instalação de para-raios em território nacional. Nela constam as diretrizes que devem ser obedecidas, segundo uma série de regras específicas para cada situação. Além da NBR 5.419, o decreto estadual nº 897/76, conhecido como Código de Segurança contra Incêndio e Pânico, também exige o uso do Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas em edificações e estabelecimentos industriais ou comerciais com mais de 1.500 m² de área construída, em toda e qualquer edificação com mais de 30 metros de altura, em áreas destinadas a depósitos de explosivos ou inflamáveis e em outros casos a critério do Corpo de Bombeiros.

Mesmo construções mais baixas ou fora dessas especificações podem ter para-raios, desde que colocado por uma empresa especializada, habilitada pelo Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ) e pelo Corpo de Bombeiros. Síndico há quatro anos do Condomínio Vivenda do Gabinal, na Freguesia, o comerciante Alexandre Martins Mendes pretende dotar o prédio de 40 apartamentos, distribuídos por quatro andares, de um sistema PDA em um futuro próximo. “O síndico sempre tem que estar preparado para todas as possibilidades e pensar mais para frente. Matematicamente, sei que as chances de um raio nos atingir são baixas, mas e se acontecer?”, questiona Alexandre. “O condomínio não tem como arcar com o tipo de prejuízo que um relâmpago pode causar.”

Diretor da Meta Extintores, José Teixeira foi testemunha ocular do estrago que um raio é capaz de fazer. Há cinco anos ele estava em frente a sua empresa, em Bonsucesso, quando um relâmpago atingiu um edifício do outro lado da rua. A construção até tinha para-raios, mas o topo de uma das colunas estava com o revestimento (argamassa) desgastado e com partes da estrutura de ferro aparentes. A chuva já acabara, mas um último raio acertou o pequeno segmento de metal que estava exposto, explodindo uma porção de concreto em torno da área. “Alguns pedaços de concreto chegaram a cem metros de distância, a meus pés”, lembra ele. “Não houve estragos maiores, além da reconstrução da área atingida. A instalação do para-raios é indispensável, mas a manutenção adequada é imprescindível”, afirma Teixeira.

A revisão periódica de todo o sistema PDA, anualmente, vai além do que está no topo do edifício. Aliás, um engano muito comum é acreditar que o para-raios se resuresu-me aos captadores, que é o nome apropriado das ponteiras em cima do mastro. Dos captadores saem cabos condutores, presos ao longo do mastro por isoladores. Os cabos descem paralelos ao prédio – mas sem tocá-lo e também separados dele por isoladores – até o chão, onde fica o aterramento. Sob o solo, é fincada uma ou mais hastes de cobre de 2,40 metros. Quando uma descarga atmosférica atinge o para-raios, ela corre pelos cabos até a terra, que é recebida pela barra enterrada e dissipada pelo solo. Quem está dentro da construção não sente nada.

A manutenção adequada deve abranger todas essas partes, inclusive o aterramento. “Na maior parte da cidade do Rio de Janeiro, o solo é naturalmente muito rochoso e precisa de um tratamento especial para que possa assimilar os milhares de volts de um raio”, diz o engenheiro civil e elétrico Orlando Sodré. Consultor do Sindicato da Habitação do Rio (Secovi Rio) e funcionário da Defesa Civil, Orlando explica que, com o tempo, muitas vezes esse tratamento dado ao solo compromete o aterramento. “Usa-se, por exemplo, alcatrão, que acaba corroendo parte do material que está sob a terra e nós não vemos. Não é incomum um cabo de quase três metros ter se desgastado ao ponto de ficar com 30 centímetros”, alerta o engenheiro. “Outro risco é, por exemplo, um dos isoladores estar oxidado, o que pode gerar fagulhas quando a descarga estiver passando pelo condutor.” Mas a falta de revisão do sistema PDA pode esconder riscos ainda maiores. Nos anos 1960 e 1970, foi comum o uso de captores que utilizavam uma pastilha feita com material radioativo. Esse modelo de captor é proibido e sua retirada, obrigatória por lei desde 1989, mas eles continuam espalhados por aí. “Há muitos condomínios antigos, principalmente em Copacabana e na Lagoa, que ainda têm esse tipo de para-raios radioativo. Como a manutenção nunca é feita, ninguém sabe que eles estão lá”, avisa Antônio Amaro, diretor comercial da Atac Fire. “Se a pastilha estiver comprometida, pode ocorrer vazamento. Além disso, esse tipo de para-raios é ineficaz e não protege o prédio das descargas atmosféricas.”

Outro erro comum é achar que o sistema PDA do vizinho protege vários prédios. Apesar de o para-raios de uma construção em tese “desviar” os relâmpagos de outras, ele é projetado especificamente para uma determinada edificação e não é garantia de que os raios não vão cair nos condomínios próximos. Há 11 anos, ao assumir o cargo de síndico de um edifício em Ipanema composto de três andares de lojas e oito de apartamentos, Wilson Jorge de Mattos decidiu não contar com a sorte e fez questão de instalar o sistema no prédio. Graças a seu tamanho e a sua localização – no centro do terreno –, a construção acabou ganhando dois para-raios, cuja manutenção é feita religiosamente e seguindo todas as indicações. “Para mim, trata-se, antes de tudo, de uma questão de segurança. Ficamos todos protegidos, moradores e lojistas. E eu, como síndico, estou tranquilo em saber que a vida e o patrimônio de todos não correm riscos.”


Para saber mais

• Sempre verifique se a empresa contratada para o serviço de instalação
e manutenção do sistema PDA está habilitada a fazê-lo.

• Nunca ande descalço fora de casa durante uma tempestade.

• Assim que uma tormenta começar a se formar, todos devem sair de piscinas ou do mar. A água é uma ótima condutora de eletricidade e o perigo aumenta.

• Também é hora de parar com o futebol se começar a chover. Campos abertos atraem as descargas elétricas e são recordistas em acidentes. Quadras de tênis, estacionamentos e outras áreas abertas também não protegem ninguém. Carros podem ser um bom abrigo, porque oferecem proteção razoável, mesmo se um raio atingir o veículo. Mas feche os vidros e não encoste em nada. Evite também estacionar perto de árvores ou linhas de energia elétrica.

• Nunca se abrigue debaixo de árvores isoladas, nem fique no alto de morros ou no topo de prédios.

• Dentro de casa, não fique perto de tomadas, canos, janelas e portas metálicas nem toque em equipamento elétrico que esteja ligado. Aliás, a recomendação para aparelhos elétricos é que sejam desligados. Banho de chuveiro elétrico, nem pensar. Não use o telefone, só os sem fio, e feche as janelas.

• O Secovi Rio promove cursos sobre equipamento de segurança. Para detalhes, basta entrar em contato pelo telefone 2272-8000.



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