Não é só beleza que importa na hora de dar uma cara nova a seu prédio.
O prédio já não é mais aquele de quando foi construído. A fachada está se desfazendo: pastilhas estão caindo, mármores e granitos também. Já os pisos se encontram rachados ou quebrados. Ou seja: a “cara” do edifício está péssima e precisa urgentemente de uma plástica. O que fazer? O primeiro passo para deixar o prédio como se tivesse sido construído há pouco tempo é trocar ou restaurar o revestimento que cobre paredes e pisos. Chegada a hora, porém, é preciso avaliar muito mais que o aspecto estético da opção. Devem-se levar em conta também a funcionalidade do modelo escolhido e a adequação de cada revestimento ao local em que ele será aplicado.
“Os revestimentos correspondem ao acabamento de uma edificação, sendo a parte que se apresenta mais visível, com a finalidade principal de proteção: de paredes, pisos e tetos, incluídos os forros”, define Orlando Sodré, consultor da Secovi-Rio e engenheiro especializado em manutenção predial. Os revestimentos são executados para dar à superfície maior resistência ao choque ou à abrasão, para impermeabilizá-la, torná-la mais higiênica, ou seja, lavável, ou, ainda, aumentar a qualidade de isolamento térmico e acústico.
Segundo empresas da área, restaurações e trocas de revestimento têm aumentado bastante. “As frequentes alterações climáticas e até mesmo tremores de terra no Brasil têm preocupado condôminos”, conta Sebastião Rosa, da Ferrari Leite.
Por tudo isso, na hora de mudar a “cara” de seu prédio, planeje o passo a passo que vai levá-lo ao material ideal para aplicação ou restauração daquele revestimento que precisa apenas de alguns retoques. Segundo Sodré, a execução de um revestimento deve ser feita em duas etapas: planejamento e execução. “O planejamento é fundamental para a execução de um bom revestimento, e é nessa etapa que se detectam e solucionam possíveis erros, evitando problemas futuros. Recomenda-se fazer a compatibilização dos projetos de arquitetura, estrutura, hidráulica, elétrica e impermeabilização; a especificação correta do revestimento para cada ambiente e utilização; a discriminação da argamassa colante e do rejuntamento; um projeto de paginação que planeje a distribuição de juntas e os tipos de rejuntamento, corte, interferência de abertura, ressalto e pontos de instalações prediais”, explica Sodré. “Na execução, deve ser feita a verificação das ferramentas adequadas e sua boa utilizações a avaliação do substrato quanto a nível, prumo, impermeabilização, caimento, regularização e resistência aos esforços que deve suportar. A escolha do tipo de revestimento depende do ambiente interno ou externo em que for instalado, da utilização desses ambientes e do tipo de base ou superfície sobre o qual será aplicado (metálica, madeira, de cimento, cerâmica etc.)”, ele ressalta.
Existem variados tipos de revestimento, para todos os gostos, necessidades e orçamentos. Eles são constituídos de mármore, granito, porcelanato, acrílico, pastilha, pedra natural rústica, concreto, madeira, borracha, gesso ou cerâmica; podem ser vinílicos, melamínicos ou texturados. A variedade é tanta que pode confundir. Além disso, há modelos apropriados para cada uso. Evite, por exemplo, mármore em pisos externos, principalmente em bordas de piscina: ele desgasta. Aproveite-o na parte interna, apesar de os mais porosos mancharem com facilidade. Ainda no caso da piscina, deve-se ter cuidado também com os granitos – os polidos ficam escorregadios quando molhados, por isso, o acabamento deve ser antiderrapante quando o granito for usado em áreas externas. A melhor opção para esses casos acabam sendo as pedras naturais. Estas já falam por si sós em termos de variedade: arenito, pedra-sabão e paralelepípedo são apenas algumas delas. Essas pedras naturais não passam por processos industriais, por isso, são ditas rústicas. A instalação delas deve ser executada por profissionais especializados, que utilizarão as ferramentas adequadas (martelo de borracha, serra mármore, nível, régua metálica). Para pisos e paredes externos, por exemplo, as pedras mais indicadas são arenito, pedra-sabão, pedra mineira, pedra são tomé, paralelepípedo e pedra goiás.
“O uso de pedras naturais como revestimento de piso muitas vezes está associado à ideia de resistência e segurança, porém, esse critério de escolha tem de ser bem avaliado, pois muitas placas rochosas podem manchar e ser inapropriadas para o uso externo ou em locais com muita umidade”, alerta Sodré.
As pedras, no entanto, não estão entre os itens mais populares como revestimento perfeito. A escolha maior tem sido os da “moda”, como o porcelanato, que impressiona pela beleza e modernidade, e a cerâmica, velha conhecida dos condomínios e que tem sido uma alternativa à substituição das pastilhas, hoje em desuso, com muitos modelos já fora de linha.
“Existem porcelanatos de todo tipo, e os mais modernos são muito resistentes e têm baixa absorção de água,” defende Renée Christiane Hood, engenheira da Isocom, empresa especializada.
“Atualmente, os que se destacam no mercado em termos de revestimentos são aqueles que imitam as imperfeições de um piso natural mais rústico, porém, são feitos de material mais nobre, elegante, resistente e durável, como os porcelanatos, com cores exuberantes e neutras, e os mosaicos de placas que revestem paredes com acabamento decorativo em baixo e alto relevo, inspirados nas obras de artistas famosos”, explica o consultor do Secovi-Rio. “De qualquer forma, os modelos mais utilizados ainda são aqueles que aliam custo e benefício, e os cerâmicos continuam batendo recorde de vendas em todo o país. Mas se optarmos por manutenção, resistência, durabilidade e elegância, os porcelanatos e granitos passam a encabeçar esta lista.”
Enquanto se escolhe o revestimento ideal para a tal “plástica”, deve-se levar em consideração também o aspecto da segurança: revestimentos antigos e desgastados não só enfeiam o condomínio como oferecem perigo para moradores e passantes ao se tornarem potenciais fontes de acidentes, que podem ser graves, caso descolem e caiam em alguém, bem como pisos quebrados, que podem causar quedas. Por isso mesmo, é necessário prestar atenção à base do revestimento.
“Tão ou mais importante que o revestimento é a forma como ele é colocado. Existem até mesmo normas para isso”, explica Renée, referindo-se à NBR 13.755/96, que diz respeito ao revestimento de paredes externas e fachadas, com placas de cerâmica com argamassa colante. “Revestimento é estético. A base tem que estar preparada para recebê-lo e ela tem que ser disposta de modo a aliviar as tensões entre as pedras ou o material da fachada. Se não houver espaço, eles podem dilatar e comprimir e o revestimento ‘pipoca’ e cai”, alerta Renée. “O ideal é fazer reformas e revisões a cada três anos, até porque a substituição total de revestimentos é muito cara”, aconselha Michel Fiad Júnior, diretor da Altenge.
Segurança também foi a preocupação da síndica Elvira Perim, do edifício Sonata da Lagoa, que promoveu a restauração parcial das pastilhas e a fixação do granito. Antes, porém, ela se assegurou de providenciar um laudo técnico para a análise do embolso. “Como o prédio tem 25 anos, tem que ter mais segurança. Quando for fazer restauração de fachadas, peça laudo técnico para ver se o problema é simplesmente estético ou também estrutural”, aconselha.
Quem resolveu investir na troca e restauração de revestimentos no condomínio não se arrependeu. É o caso da síndica Ângela Maria Reis Klun, do edifício San Giovanni, em Botafogo, que teve sinal verde dos condôminos e fez uma boa reforma no revestimento da cobertura, onde fica a piscina, e no play, entre outras áreas comuns. Tal troca foi motivada por necessidade: o antigo revestimento, de azulejo comum, estava velho e quebrado.
“Aproveitei para dar uma cara bonita para ao prédio”, brinca Ângela, que não brincou em serviço: o piso dos halls da cobertura foi trocado por porcelanato; o revestimento de azulejo das paredes no entorno foi substituído por pastilhas de vidro; no play, ela mudou o piso também, optou pelo porcelanato; no entorno da piscina, permaneceram as pedras são tomé, mas elas passaram por um processo de clareamento que as deixou praticamente novas. Fez um revestimento de granito na mureta e no gradil do prédio que, além de deixar a área mais bonita, serviu para evitar vazamentos. O resultado foi muito positivo: os moradores passaram a frequentar mais as áreas comuns do prédio, incluindo a piscina, que reabriu há pouco mais de um mês.
Outra que viu seu prédio praticamente renascer foi Fátima Costa Vieira, síndica do condomínio Edifício Solar Marquês de Valença, na Tijuca. Antes das reformas que deixaram o prédio tinindo de novo, o condomínio de Fátima era considerado o mais horroroso da rua. Se não dava susto, causava o efeito contrário: o prédio nem era notado nessa rua tipicamente residencial do tradicional bairro carioca: “Quando chovia, caíam água e também as pastilhas da fachada”, conta ela, cujo prédio tem cerca de 40 anos e até então não tinha passado por uma boa restauração. As pastilhas que caíam mostravam que, além de antigo, o prédio oferecia perigo para quem passava ou morava no local.
Decidida a dar um trato no condomínio mas sem verba suficiente para trocar o revestimento de todo o prédio, Fátima resolveu interferir na parte da frente do edifício, substituindo as pastilhas por cerâmica que, além de bonita, é mais resistente e fácil de limpar. O restante das pastilhas passou por um processo de reposição, mas como não achou material igual ao original, ela optou por pintar todas elas da mesma cor. Fátima também fez interferência no revestimento de outras áreas comuns: na portaria, escolheu um modelo cuja textura da parede combinava com o revestimento de madeira do local, que também ganhou um espelho e um aquário. “Agora, as pessoas param um tempo na portaria, sem passar simplesmente por ela”, conta.
No muro, trocou as pastilhas desgastadas e colocou mármore na parte superior. Além da mudança nos revestimentos, Fátima também restaurou o jardim e refez as jardineiras, pôs portas de alumínio na garagem, grades para segurança e refez toda a iluminação externa, entre outras melhorias. “Algumas pessoas não reconheceram o prédio de tão bonito que ficou”, orgulha-se.
Tanto investimento na “cara” do prédio também valorizou os imóveis: perguntas se há apartamentos para vender no condomínio são frequentes. Por enquanto, nenhum morador se mostrou interessado em se desfazer o imóvel, ainda mais depois do banho de loja que o prédio levou.