Condomínios buscam, na vigilância eletrônica e na consultoria técnica, as armas para enfrentar a violência da cidade.
Que o Rio de Janeiro vive tempos de guerra, apesar de alguns avanços, como as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), ninguém tem dúvida. Mas, para além da pauta das políticas públicas, a segurança, ou a falta dela, é responsabilidade de todos, dos cidadãos e, claro, dos condomínios cariocas. Apesar de os números apontarem para uma queda na curva da violência, inclusive dos casos de homicídio, as estatísticas ainda são suficientemente assustadoras e continuam a tirar o sono dos moradores da cidade. Somente em junho, julho e agosto de 2010, período que consta os últimos dados oficiais divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do estado, foram 344 casas e, nada mais nada menos, que 4.924 carros roubados. Enquanto não se encontra uma solução definitiva para o problema, o mercado de produtos e serviços para quem não se sente seguro não para de crescer, e as ofertas para condomínios residenciais é que não falta. Em primeiro lugar, está a prevenção. Se por um lado as UPPs aumentaram a sensação de segurança em comunidades carentes, por outro, elas geraram, em alguns bairros da cidade, problemas “no asfalto”, como o aumento de roubos, furtos, arrastões e ataques violentos do crime organizado. No primeiro semestre de 2009, por exemplo, enquanto moradores do morro Dona Marta comemoravam uma nova fase em sua rotina longe do tráfico armado, as ruas do bairro enfrentavam um aumento do número de assaltos. É claro que todos, no asfalto e no morro, saíram ganhando com o fim dos constantes tiroteios, mas a polícia foi obrigada a rever sua estratégia de policiamento na região. Atentos ao fenômeno, os condomínios têm encontrado na vigilância eletrônica um forte aliado contra a insegurança. Mas é preciso seguir algumas recomendações – de preferência de técnicos especializados no assunto – para não cair em ciladas. O assunto é tão sério que virou agenda obrigatória para as entidades ligadas ao setor imobiliário. A primeira dica importante é fugir dos palpites, que podem representar desperdício de dinheiro e pouca eficiência. O melhor é buscar a ajuda de um consultor qualificado antes de cercar todo o prédio ou comprar qualquer sistema de câmeras, partindo do princípio errado de que todas são iguais. Só para citar um exemplo, que pode ser muito desagradável, é adquirir um circuito de TV que não grava, o que faz dele apenas uma geringonça cara e inócua. Outra recomendação que vale a pena considerar é que o treinamento de funcionários e porteiros, e até mesmo dos condôminos, é tão ou mais importante do que fazer investimentos pesados numa parafernália tecnológica.
Esse é o tipo de consciência que está crescendo entre os condomínios da cidade. O consultor de segurança do Secovi, Raimundo Castro, é um expert no assunto. Responsável por cursos criados para disseminar informações sobre o tema, que são ministrados até para pessoas de outros estados, ele explica que a segurança deve obedecer a um trinômio. São eles: recursos humanos capacitados, equipamento apropriado e instalações adequadas. Um lugar em especial merece todas as atenções, segundo ele. “A portaria é estratégica. Ela tem que ser protegida. Já falamos no trinômio. Não adianta ter bom equipamento e treinar os profissionais se não proporcionamos a eles a proteção devida”, alerta Castro, lembrando que o conceito geral é o primeiro passo para o sucesso de um planejamento de segurança e, só depois, devem-se voltar as atenções para a operação em si de entrada e saída de pessoas no prédio.
Mas o que é uma portaria segura? O consultor de segurança, mais uma vez, volta à questão do conceito. A portaria segura, de acordo com Raimundo, tem que ser enclausurada. Explica-se: ela precisa ter duas portas, obrigatoriamente: uma só abre quando a outra está fechada. “Tecnicamente, classificamos esse conjunto de portões de enclausuramento e intertravamento de portas. Uma porta só abre quando a outra efetivamente estiver fechada. Isso vale tanto para a portaria de pedestres quanto para o acesso de veículos. É um sistema eletromecânico que funciona muito bem. Um dos pontos mais vulneráveis do condomínio é o acesso à garagem, porque os portões são lentos, dão tempo de o bandido agir não só rendendo a vítima com facilidade como, a partir dali, ingressando em todas as dependências do prédio. Com o sistema de enclausuramento, isso é muito mais difícil de acontecer”, explica o consultor do Secovi. Ele cita, ainda, como itens muito úteis, os circuitos internos de câmeras, desde que gravem as imagens e que elas fiquem armazenadas por algum tempo. Em condomínios maiores, o sistema pode ser mais sofisticado – fotografar os visitantes e registrar os dados pessoais e o número do documento de identificação deles. Mas Castro observa que não há mágica ou projetos de segurança infalíveis: “Nenhum sistema de segurança tem eficiência de 100%. O raciocínio é que ele aumenta o grau de risco para o criminoso. E bandido gosta de facilidade, ele não quer correr risco. Eles ‘trabalham’ para diminuir esse risco e a gente, para aumentá-lo.
Quanto mais a gente proteger o prédio, mais difícil será a ação do ladrão e, quanto mais difícil for para ele, mais terá medo de agir.”
De fato, entre os itens mais procurados estão os circuitos internos de câmeras, cujas vendas têm estado ainda mais aquecidas com as frequentes notícias de arrastões pela cidade. O ponto forte da Segmix é justamente o controle do acesso. E não é qualquer um. Além apostar no conceito de clausura, que pode ser aplicado se o prédio contar com duas portas de acesso à portaria, a empresa também oferece equipamento diferenciado. A Segmix adota a tecnologia de tags, as mesmas usadas para liberar o acesso às pistas automáticas da Linha Amarela. É simples: um sensor, instalado no para-brisa do carro, emite um sinal quando o morador se aproxima da entrada da garagem. Ao mesmo tempo, o porteiro, dentro do prédio, é informado, num terminal, sobre quem está chegando. Outro modelo muito vendido é o tag-táctil, afixado no painel do carro e que pode ter até quatro botões configurados para ser utilizados pelo motorista, um deles o de pânico. Nesse caso, se o morador for rendido ao chegar ao prédio, ele pode simplesmente apertar o botão de pânico, avisando o porteiro sobre a situação de perigo e garantindo tempo suficiente para ele acionar a polícia. “Em nossas pesquisas, constatamos que 90% das invasões de prédios ocorrem pela entrada da garagem”, diz Carlos Andrade, gerente comercial da Segmix. Segundo Andrade, um sistema de segurança, com câmeras e tags, pode custar entre R$ 8 e R$ 10 mil para condomínios de cem unidades e cerca de R$ 15 mil para os de 200. É claro que tudo vai depender da quantidade de câmeras que serão utilizadas e do grau de complexidade do sistema, o que deve ser definido de acordo com a necessidade de cada prédio e, claro, as características do local. O gerente comercial afirma que uma tecnologia complementa a outra e que o projeto de segurança, em geral, é uma combinação de elementos. As imagens geradas podem ser acessadas de qualquer lugar do mundo. “Hoje a tecnologia permite que morador, síndico ou administrador acesse imagens, em tempo real, do prédio por meio de um microcomputador com o uso de uma senha”, afirma Andrade, acrescentando que a orientação geral é para que as imagens permaneçam gravadas num HD por um prazo de 20 a 30 dias. Preocupado com a onda de assaltos na região, o administrador do Condomínio Dom Garcia, no Cachambi, Márcio Rodrigues de Souza, orientou os moradores do prédio a adquirirem um sistema de câmeras para monitorar todas as dependências do prédio. A iniciativa foi tomada há cerca de três anos. Antes ele havia presenciado uma série de ataques de assaltantes na rua e roubos de bicicletas, carros e celulares. “Quando comecei a trabalhar aqui, tive meu carro roubado na porta do prédio. Na época, eu estacionava do outro lado da rua. Por coincidência, estava socorrendo uma moradora que havia sido roubada por um ladrão de motocicleta quando percebi que meu Monza tinha sido levado”, recorda-se.
São 32 câmeras espalhadas em toda a área do condomínio. Algumas vezes, as imagens foram encaminhadas para a polícia, tanto para ajudar na identificação de bandidos, em razão de alguma abordagem feita a moradores, quanto para contribuir com a solução de um crime ocorrido na rua.
“A gente tem consciência de que quando o bandido quer ele assalta, mesmo sabendo que está sendo filmado. São comuns imagens de assaltos dentro de ônibus em que o ladrão ainda faz
sinal para a câmera. Mas com as imagens gravadas, o trabalho da polícia tem mais chances de ser bem-sucedido”, acredita Souza.
As imagens, segundo Eduardo Furtado, um dos sócios da Rentel, há 15 anos no mercado, são mesmo os itens mais procurados. Ele explica que, bem posicionadas e com um sistema de armazenamento, são fundamentais para identificar possíveis assaltantes ou mesmo inibir a ação de ladrões. “As pessoas estão muito assustadas. O noticiário de TV não para de falar sobre arrastões e quadrilhas de assaltantes. O sistema de câmeras não chega a ser um Big Brother mas é suficiente para identificar a presença de pessoas estranhas dentro do condomínio. As imagens digitais são muito nítidas. Se o prédio não for muito grande, umas dez câmeras instaladas na parte frontal, na portaria e no entorno vão surtir o efeito esperado. A demanda aumentou muito. Os moradores têm descoberto vantagens também no controle da rotina do próprio prédio e até mesmo da entrada e saída de moradores em seus imóveis”, diz Furtado, acrescentando que o sistema pode ser incrementado por luzes infravermelhas com sensores de presença e alarmes.
A procura por sistemas de segurança não é apenas uma precaução. Antes de tomar a decisão de investir em vigilância eletrônica, os condomínios colecionam histórias de tentativas ou assaltos à administração, invasões de suas dependências e casos de moradores abordados – e roubados – quando chegam em casa ou saem dela. Há uns cinco anos, a administradora Telma Costa, que está à frente do dia a dia do Condomínio Terra Nova, em Itaipu, Niterói, participou de uma mudança que acabou de vez com os constantes problemas enfrentados no lugar: um sistema de câmeras diferenciado, com o cadastro de todos os que entram e saem de lá, com fotos, documentos de identidade e endereço. “Decidimos fazer para reforçar a segurança. Nós somos um condomínio de casas, e na região estava havendo muito assalto a residências. Além do sistema de identificação, temos alarme e concertina farpada (uma cerca de arame em forma espiral) em toda a volta do muro. É a mesma usada nos quartéis do Exército”, explica
Telma, que trabalha no condomínio há nove anos. “Antes enfrentamos algumas invasões aqui, principalmente pela mata. Umas duas vezes, roubaram mais de uma casa, levaram pequenos objetos. Graças a Deus, ninguém nunca se feriu, mas o medo era muito grande.”
Telma acredita que o aparato de segurança desestimulou a ação de assaltantes. Segundo ela, o equipamento nunca precisou ser usado para a identificação de bandidos e passou a ser muito mais útil para a própria administração: “A lição é que os criminosos procuram o caminho mais fácil. Eles preferem agir em locais vulneráveis. O que não é mais nosso caso.”
O consultor de segurança do Secovi, Raimundo Castro, recomenda investimento no trinômio treinamento equipa mento-instalações adequadas: “Bandido não quer correr riscos”.
Férias exigem segurança redobrada nos condomínios
Durante o período de férias, muitas famílias viajam e deixam suas casas ou apartamentos fechados por um longo período. A Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis (Abadi) adverte que nessa época a adoção de medidas de precaução é imprescindível.
Para Pedro Carsalade, presidente da Abadi, o síndico tem papel fundamental nesse processo. “O síndico precisa chamar a atenção dos moradores para a importância de se tomarem certos cuidados antes de viajar. Muitas vezes, a falta de cautela é responsável pela ocorrência de situações de risco. Informações sobre os perigos que costumam ocorrer nessa época do ano podem ser transmitidas por meio de palestras, comunicados internos e outras atividades”, sugere.
Além disso, pequenas atitudes facilitam a vida dos funcionários e dos condôminos:
*Tranque portas e janelas; feche o registro de água e de gás e desligue o quadro geral de luz;
*Antes de sair, teste o sistema de segurança interno, se houver;
*Suspenda a entrega de jornais e revista e peça para deixar a correspondência na portaria;
* Deixe a chave e um telefone de contato com um parente ou amigo, de preferência que não more no local;
*Não informe a data de retorno aos funcionários do condomínio;
* Deixe algum vizinho avisado de sua ausência, que poderá observar alguma irregularidade em sua residência;
*Já o síndico deve evitar dar férias a funcionários nesse período para não desfalcar o quadro; o zelador deve testar os sistemas de segurança e alarmes; os funcionários devem ser orientados para não darem informações a ninguém sobre quem está viajando e/ou em período de ausência;
*Caso vá viajar sem seu veículo, mantenha-o sempre trancado e sem objetos à vista na garagem;
*O condômino deve participar das reuniões e dos cursos no condomínio. Afinal, ele é o maior interessado em preservar a integridade física de sua família e amigos. A integração e a conscientização de moradores e funcionários são importantes para que esses procedimentos deem resultado.