Quarta-feira à noite, dia de jogo do Campeonato Brasileiro. Sexta e sábado, capítulo importante das novelas das seis, das sete e das oito. Domingo, programas de variedades. Ao longo da semana, o que não falta na televisão é uma farta gama de opções para todos os gostos. Mas quando se trata de vigilância nos condomínios da cidade, a telinha mais importante é a do circuito interno de TV. Especialistas na área de segurança garantem que a distração extra atrapalha e muito a concentração de porteiros e zeladores, criando um comportamento que pode oferecer risco aos moradores e aos próprios profissionais. Entre os síndicos, no entanto, a questão é polêmica e as opiniões se dividem. Há quem permita o aparelho e quem o proíba e ainda existem aqueles que confiam no bom senso dos porteiros quanto ao uso da televisão.
Comandante do 19º Batalhão de Polícia Militar, em Copacabana, onde regularmente são realizados cursos de treinamento em segurança predial, o tenente-coronel Rogério Seabra explica que o aumento da fragilidade da segurança em condomínios está muito ligado à desatenção dos profissionais de portaria. “Sou contra a presença da TV porque a função do porteiro é vigiar constantemente o circuito interno de imagens, acompanhar a movimentação na rua, o que acontece a sua volta. A televisão distrai e impede que ele faça seu trabalho corretamente”, afirma ele, lembrando ainda que síndicos e moradores também têm que fazer sua parte. “Quem coloca a TV na portaria tem corresponsabilidade na quebra da proteção do prédio.”
Consultor de segurança predial do Sindicato de Habitação do Rio (Secovi Rio), Raimundo Castro também é veemente ao vetar a presença do aparelho em portarias e guaritas. “A atividade de segurança e vigilância exige atenção e percepção e não combina com entretenimento. A TV tira o foco da atividade de observação”, afirma. Segundo ele, que dá cursos de qualificação para profissionais da área, inclusive síndicos, quem acha que porteiro tem tempo para ver televisão está enganado. “O trabalho do profissional é, antes de tudo,
observar. Ele não está ali apenas abrindo porta”, ressalta.
Os síndicos nem sempre concordam com essa política de tolerância zero com aquela que o escritor Stanislaw Ponte Preta chamava de “a máquina de fazer doido”. No Condomínio Matriz da Lagoa, em Botafogo, a única portaria já teve uma TV. Mas com a mudança de funcionários e após alguns problemas, a síndica Maria da Conceição Knupp achou melhor reservar a televisão para ocasiões especiais, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. “Tenho uma equipe de cinco profissionais, e como nosso edifício é misto, o número de pessoas que transita é muito grande. Além disso, há uma boate próxima. Eles têm de se concentrar nos monitores das câmeras de segurança”, pondera. Para ela, no entanto, a conduta do profissional é o que conta. “Se o porteiro for responsável, ciente de suas obrigações, não vejo problemas em ter o aparelho”, diz Conceição, que já é síndica há sete anos.
Postura semelhante tem Renato Larotonda, síndico do Condomínio Morristown, em Laranjeiras. Lá a portaria não só tem televisão como ela fica ligada o dia inteiro. “Com o treinamento adequado, não acredito que a TV seja um risco efetivo à segurança. O profissional habilitado terá como foco as imagens do circuito interno”, diz ele. Renato defende ainda que o aparelho pode ser de grande ajuda à noite. “Assistindo à televisão, o porteiro não dorme, quando a tendência natural seria cochilar”, afirma. Mas para quem é especialista no assunto, não é bem assim. “Cochilar é muito melhor que ver TV, não importa o programa. Quem está dormindo acorda sobressaltado com qualquer barulho e trata de checar o que está acontecendo. Mas quando a pessoa não percebe o que se desenrola a sua volta porque está ocupada com a televisão, está dando margem para o chamado crime de oportunidade”, explica Raimundo Castro.
É com essa mentalidade que Fernando Barbosa dos Santos administra o condomínio Privilege, no Méier. O síndico não permite televisão, liberou o rádio de pilha durante esta Copa do Mundo com a ressalva de que o som deveria ser o mais baixo possível e procura sempre repassar aos funcionários tudo que aprende sobre segurança predial. “Se é para ver TV, melhor fechar a portaria. Temos três entradas no prédio, e o profissional tem de focar sua capacidade visual e auditiva na atividade para a qual foi contratado. De nada adianta se o porteiro ficar ligado na televisão”, argumenta. Fernando conta que graças a essa insistência na prevenção, possíveis situações de risco já foram evitadas. “Em certa ocasião, o funcionário conseguiu evitar a entrada de elementos suspeitos porque estava atento ao movimento na rua. Os porteiros fazem muito pelo prédio e a responsabilidade deles é grande”, lembra.
Diretora comercial da ABC Telecom, empresa especializada em segurança eletrônica, Aline Sartório também faz parte do time que acredita que a melhor programação é a do circuito fechado de TV. “Com a televisão, pode haver distração, causando, assim, um déficit na segurança dos moradores”, afirma, ressaltando a necessidade
de preparar os profissionais de portaria para suas incumbências. “A pessoa responsável deve ser qualificada para operar os sistemas de proteção, recebendo treinamento constante sobre como evitar cair em armadilhas de ladrões.” Mesma posição de Paulo Feio, sócio-diretor da PortAlarm. Ele lembra que porteiros vigiam não só as entradas do edifício, mas, muitas vezes, áreas comuns do prédio, como a garagem e os elevadores. “Sei que se trata de um tema polêmico e que há um sentimento de ‘pena’ do funcionário, que fica, em geral, sozinho na portaria, mas ele tem muito o que fazer. Ele está ali para vigiar. O equipamento ajuda, mas o fator humano é imprescindível.”
E o radinho, pode?
Se a televisão está na lista negra, o velho e bom radinho de pilha tem seu lugar garantido nas guaritas e similares e é parceiro fiel de muitos porteiros. Isso porque, para os especialistas, ele não oferece o mesmo tipo de distração que a TV. “A imagem prende a atenção de quem vê. Olhou, desviou o foco de tudo que está ao redor”, explica Raimundo Castro. “O rádio, depois de um tempo, acaba funcionando como um som, um ruído ao fundo”, acrescenta Paulo Feio.
Aline Sartório acredita que o radinho não atrapalha tanto o trabalho quanto a
televisão, mas ainda sim prefere não arriscar.“Minha posição é de não recomendar nenhum tipo de aparelho que possa desviar a concentração de porteiros ou seguranças”, aconselha ela. Por precaução, o síndico Fernando Barbosa também veta o rádio, mas Renato Larotonda defende que o aparelho pode ajudar na segurança: “É através dele que o profissional pode ficar sabendo se há eventos ou algum tipo de tumulto nas redondezas que exijam vigilância redobrada.”
Como aumentar a segurança de seu condomínio
Tirar a televisão de guaritas e portarias já é um grande passo para fortalecer a segurança de condomínios dos mais diversos portes, mas outras atitudes simples e eficazes fazem a diferença na hora de minimizar os riscos a moradores e funcionários. Veja:
• Checar, com cautela, os antecedentes dos novos empregados;
• O rientar os porteiros a não discutir a rotina do prédio e dos moradores com funcionários de outros prédios, guardadores de rua, entregadores etc.;
• Nunca deixar alguém ingressar no condomínio sem que a entrada tenha sido confirmada por um morador. Isso vale tanto para o filho que visita a mãe idosa toda semana quanto para o rapaz da pizza e da farmácia;
• A tenção com pessoas que se dizem representantes da companhia de gás, luz e TV a cabo, entre outras. Trata-se de um truque muito usado por ladrões para conseguir entrar no prédio. A orientação é a mesma: checar com os moradores ou com o síndico se o profissional foi realmente solicitado e só então permitir seu acesso ao condomínio;
• Copa do Mundo, carnaval, festas de fim de ano e outros eventos de grande porte exigem atenção redobrada. “A possibilidade de aglomeração de pessoas e o movimento intenso podem distrair porteiro da rotina à qual ele está acostumado, fragilizando a segurança”, alerta o comandante Seabra, da PM;
• Criar um código que permita aos moradores saberem se há algo errado no edifício. Por exemplo, em caso de assalto em andamento, o porteiro pode mudar um vaso de plantas ou um abajur de lugar, avisando para quem chega que não deve entrar no condomínio;
• Se por alguma razão ladrões conseguiram entrar no prédio, não é hora de ninguém bancar o herói. A atitude correta e mais segura para todos é chamar a polícia imediatamente;
• Fornecer treinamento e suporte aos funcionários. Quanto mais habilitados eles estiverem para suas obrigações, melhor será seu desempenho. O Secovi Rio (2272-8000) e o 19º BPM (2333-9259) oferecem cursos de segurança predial para porteiros e síndicos. Estes, vale lembrar, podem e devem repassar o que aprendem aos moradores.