Por CIPA
Em 30/05/2018
323 Views

O bairro do Flamengo perdeu de vez um dos principais espaços de resistência cultural da cidade. O local onde funcionou o Cine Paissandu, tradicional ponto de contracultura e encontro da classe artística nos anos 1960, está sendo transformado no primeiro endereço de uma rede de academias que acaba de chegar ao estado. Embargada em fevereiro deste ano, numa ação conjunta da Superintendência da Zona Sul e da Secretaria municipal de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação, a obra no prédio foi retomada há 15 dias.

Procurada, a secretaria informou, por meio de nota, que a intervenção foi liberada “após ser constatado que se trata de modificações internas no prédio, sem acréscimo de área. Sendo assim, a reforma é dispensada de licenciamento”.

– Estabelecemos um prazo de 90 dias para a conclusão da obra. Então, esperamos que em dois meses e meio ela esteja pronta – contou Marcel Gadra, diretor de expansão da rede de academias Bluefit, acrescentando que o espaço vai funcionar 24 horas.

Um dos principais nomes da geração que marcou a cultura brasileira na década de 1960, o cineasta Cacá Diegues lamentou o fim definitivo da sala de exibição:

– Na época do Cinema Novo, era ali que a gente se encontrava para conversar, discutir ideias. É uma pena que agora vire exatamente o contrário. Estamos trocando o cérebro pelos bíceps e outros músculos.

A chegada da academia ao número 35 da Rua Senador Vergueiro, no entanto, é comemorada por comerciantes da região. Há 40 anos trabalhando na área, Manoel Carneiro, sócio do restaurante Garota de Ipanema, ainda se lembra dos bons tempos em que o cinema levava movimento para a casa. Ele acredita que o novo empreendimento também impulsionará as vendas:

– No auge do cinema, a fila ficava enorme. Pode ser que, com a academia, melhore um pouco.

Os funcionários de uma lanchonete que fica ao lado do espaço estão animados.

– Depois de malhar, quem não vai querer parar aqui para tomar um suco e comer um sanduíche natural? – pergunta o entregador Francisco Edinei.

Mila Esteves, gerente de um restaurante em frente à obra, também acredita que será beneficiada com a movimentação gerada pela academia:

– Servimos pratos para todos os gostos, inclusive comida mais saudável.

A mudança no perfil do espaço, no entanto, deixa os moradores divididos. Enquanto alguns celebram a ocupação de uma área que estava abandonada, outros sentem falta de um ponto dedicado à cultura no Flamengo. A aposentada Sueli Ramalho, moradora do prédio que fica sobre o antigo cinema, faz coro com os comerciantes da região:

– Não existe mais cinema de rua. A academia vai movimentar o bairro e dar mais segurança e utilidade ao espaço, que estava abandonado, cheio de ratos e baratas. Estou muito feliz com a novidade.

A moradora Jussara Gomes acha que o fechamento definitivo do Paissandu segue uma tendência de mercado, mas diz sentir saudade dos “cinemas de antigamente”.

– Hoje em dia é tudo pela televisão ou pelo computador. A academia vai ser importante, é mais uma opção para os moradores do bairro.

Para o aposentado Heitor Jappe, morador do Flamengo há 40 anos e ex-frequentador do Cine Paissandu, a sala poderia ter outra função.

– O bairro já está cheio de academias. Embora os cinemas de rua estejam fadados a acabar, aquilo poderia ser um outro ponto de cultura. Mas pelo menos não vai ficar fechado, né? E ainda bem que não virou uma igreja – brincou.

Apesar de as salas de ruas estarem em extinção, o funcionário público Vitor Picone acredita que o cinema ainda poderia ter público:

– Fico chateado. Nenhuma outra rede de cinema quis investir, renovar a sala.

Fonte: O Globo

Cadastre-se no NOTICIPA

:: C I P A - Condomínios, Locações, compra e venda de imóveis, seguros ::
  • Rua México, 41, 2º andar - Centro - Rio de Janeiro - RJ
  • +55 21 2196 5000

CIPA na Rede

Receba Notícias