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Como o monitoramento da vistoria de gás mantém seu condomínio seguro

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A rotina de um condomínio é repleta de manutenções visíveis: a pintura que renova a fachada, o jardim que embeleza a entrada, a limpeza constante das áreas comuns. No entanto, há um item essencial que, ironicamente, acaba negligenciado por síndicos e moradores por ser praticamente invisível: a vistoria de gás. Um vazamento representa um risco extremo de incêndio e explosão, colocando em perigo a segurança de toda a coletividade do condomínio. Por isso, a inspeção periódica do sistema de gás não é apenas um trâmite burocrático; trata-se, na verdade, da principal medida de prevenção contra desastres de grandes proporções.

“É obrigação do síndico cumprir os prazos, evitando, assim, suspensões e cortes desnecessários do serviço”, explica Fabiana Tamanqueira, síndica profissional que atua há dois anos no Condomínio BarraBella, administrado pela Cipa. 

Para ajudar o síndico na gestão desse processo, detalhamos, a seguir, o passo a passo desse check-up, incluindo o que a legislação brasileira exige, as responsabilidades civis e a tecnologia envolvida. “A inspeção de gás não deve ser vista apenas como uma exigência, e, sim, como um cuidado com a vida e o patrimônio dos condôminos. Por isso, é importante que o gestor condominial apresente esse serviço como uma pauta de segurança, e não como um custo extra, mostrando para os moradores dados, exemplos e a obrigatoriedade legal”, explica Angelina Silva, coordenadora-geral da AP Vistoria, que já realizou mais de 25 mil vistorias em todo o estado do Rio de Janeiro.

 

A vistoria de gás é lei ou é norma?

Uma das maiores confusões nas assembleias de condomínio diz respeito à obrigatoriedade da referida inspeção. A resposta varia conforme o estado, mas o dever de cuidado é universal. No Rio de Janeiro, por exemplo, a Lei Estadual nº 6.890/2014 estabelece a inspeção obrigatória a cada cinco anos para todos os imóveis. Já em São Paulo, embora não exista uma lei idêntica com periodicidade fixa para o interior das unidades, vigoram o Decreto Estadual nº 63.911/18, também conhecido como Regulamento de Segurança contra Incêndio, e as normas da ABNT, como a NBR nº 15.923.

 

Atenção para quem mora no Rio de Janeiro

Para a adequação de todas as residências, a Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio de Janeiro (Agenersa) publicou um cronograma alterando as datas finais para a realização da Inspeção Periódica de Gás (IPG) para algumas áreas da capital e de cidades fluminenses, que podem ser acompanhadas no site da Naturgy. Além disso, no mesmo link, a empresa lista todas as empresas habilitadas pelo Inmetro para a realização da inspeção e o que é responsabilidade do síndico e do condômino.

 

“É importante destacar que a área comum é de responsabilidade do síndico, e do medidor individual para dentro dos domicílios é responsabilidade dos proprietários”, reforça a síndica profissional Fabiana.

 

Como é realizada a inspeção?

Para entender a complexidade do serviço, é preciso olhar além da superfície. Uma vistoria completa divide-se em três pilares fundamentais: a rede, os aparelhos e o ambiente. 

1º passo – teste de estanqueidade: esse é o procedimento mais importante. Nele, o técnico utiliza um manômetro de alta precisão para pressurizar a rede com ar comprimido ou nitrogênio. Se a pressão cair após determinado período, há vazamento. 

2º passo – verificação de dispositivos e conexões: aqui é conferido se as mangueiras e os reguladores de pressão são de material metálico – o correto para suportar a pressão e o calor do gás – e se estão dentro do prazo de validade. Isso porque um erro comum é o uso de mangueiras plásticas de jardim em fogões e aquecedores, o que é proibido. 

3º passo – análise de ventilação: este talvez seja o ponto mais negligenciado, pois pode levar a incidentes fatais, como foi o caso da morte da modelo Lidiane Aline Lourenço, de 33 anos, e de sua filha, Miana Sophya Santos, de 15, em outubro deste ano. O imóvel não passou por autovistoria depois de reformas que modificaram o projeto original e comprometeram a ventilação e a exaustão dos gases terem sido realizadas. Por isso, é importante, durante a vistoria, checar se há ventilação permanente nos locais onde o gás é queimado.

 

Atenção redobrada com o monóxido de carbono

Embora o medo de explosões seja o grande motivador da inspeção, existe um risco ainda maior: a intoxicação por monóxido de carbono (CO). Esse gás é gerado pela queima incompleta do combustível, geralmente em aquecedores mal regulados ou ambientes sem troca de ar.

Diferente do gás de cozinha, GLP ou natural, que possuem um aditivo para exalar cheiro, o monóxido de carbono é inodoro, incolor e insípido. Por isso, para identificar possíveis vazamentos, o técnico de vistoria utiliza analisadores de combustão para medir os níveis de CO no ambiente. Se a chama do aquecedor estiver amarelada ou instável, é sinal de perigo iminente. A manutenção frequente, validada pela vistoria, garante que a queima seja limpa e os gases tóxicos sejam devidamente exauridos pela chaminé.

 

Melhor periodicidade

Apesar da obrigatoriedade quinquenal, o coordenador da Cipa Síndica, Bruno Gouveia, sugere que um período mais curto entre as vistorias aumenta a segurança funcional do sistema de gás encanado: “O ideal seria a manutenção ocorrer anualmente em fogões e aquecedores de uso domiciliar e semestralmente nos aparelhos de uso comercial”, orienta.

 

Desafios para a execução do serviço

Engajar os condôminos é o maior obstáculo para os síndicos. Entre os principais motivos estão a falta de agenda e a ideia de que a inspeção periódica de gás configura uma taxa extra. Por isso, é crucial um trabalho de educação, explicando, por exemplo, que a rede de gás é um sistema integrado, então, se o apartamento no primeiro andar tem um vazamento, a segurança de quem mora no 20º andar está comprometida também. Logo, é uma questão de responsabilidade compartilhada. 

Em regra, as convenções condominiais preveem dispositivos que autorizam o síndico, ou alguém por ele indicado, a realizar vistorias, bem como reformas ou obras de urgência, especialmente quando houver risco à segurança de todo o condomínio ou da edificação. “Nesses casos, a depender da gravidade da situação, se houver risco concreto à estrutura do prédio e o síndico for impedido de acessar a unidade para realizar as adequações ou intervenções necessárias, ele deverá ingressar com a medida judicial cabível, requerendo ao juiz, por meio de liminar, a autorização urgente para o acesso, seja por ele próprio, seja por prestadores de serviço, a fim de realizar a inspeção, as regularizações e as intervenções no sistema”, destaca Jamile Vieira, advogada especializada em Direito Condominial. 

Jamile alerta que é fundamental que o síndico se documente caso seja impedido de exercer essas atribuições. Isso porque, se houver algum dano decorrente da negativa ou do impedimento imposto pelo condômino, o síndico precisará comprovar que não foi responsável por tais prejuízos. “Assim, é recomendável que ele reúna provas, como notificações formais e testemunhas, e, se necessário, lavre uma ata notarial, garantindo seu resguardo quanto a eventuais responsabilidades futuras”, explica. 

 

Como se planejar financeiramente

Para que a vistoria de gás não sobrecarregue o caixa do condomínio, o síndico deve realizar um planejamento financeiro antecipado, prevendo se o custo será absorvido pela taxa ordinária ou se demandará o uso do fundo de reserva. 

Além do valor da inspeção em si, é prudente reservar uma margem para possíveis reparos imediatos, uma vez que a detecção de irregularidades exige correções urgentes para evitar a interrupção do fornecimento. Uma estratégia eficiente para otimizar o investimento é buscar economia de escala, negociando pacotes que incluam a área comum e as unidades privativas, o que garante a conformidade total do edifício com um custo unitário menor para os condôminos.

 

E se a inspeção não for realizada?

As três principais consequências são:

 

Corte de fornecimento – concessionárias como a Comgás e a Naturgy, quando detectam irregularidades ou falta de laudo em áreas comuns, interrompem imediatamente o fornecimento de gás em todo o edifício.

 

Implicações no seguro – a falta da vistoria pode ser considerada uma negligência administrativa, razão pela qual a cobertura é cancelada, o que, em casos de sinistro de milhões de reais, pode levar o condomínio à falência. “A seguradora pode negar a cobertura, uma vez que o evento passa a ser caracterizado como um acidente decorrente de omissão do síndico, afastando a natureza de fato imprevisível ou fortuito exigida para a indenização”, alerta a advogada Jamile Vieira.

 

Desvalorização patrimonial – apartamentos sem laudo de estanqueidade enfrentam dificuldades em processos de venda e financiamento bancário, já que os bancos exigem garantias de segurança estrutural.

 

Checklist de vistoria

Enquanto a vistoria técnica não é realizada, o morador deve ficar atento a quatro sinais de alerta:

  • Cor da chama – deve ser sempre de um azul intenso. Tons de amarelo indicam má queima.
  • Cheiro de gás – se sentir o odor, não ligue luzes nem aparelhos eletrônicos e imediatamente abra as janelas e feche o registro geral do gás.
  • Prazo de validade – verifique a data gravada na mangueira do seu fogão.
  • Obstruções – garanta que as grelhas de ventilação da cozinha e da área de serviço estejam livres de objetos, armários ou cortinas.

 

Cuidados na hora de contratação

Para garantir uma inspeção válida, o condomínio deve exigir o registro da empresa no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) e, no fim da inspeção, a emissão da Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) assinada pelo engenheiro responsável e o certificado de calibração dos equipamentos de medição utilizados.

 

A segurança com o gás não admite improvisos. O custo da vistoria é o preço da tranquilidade de saber que, ao girar o botão do fogão ou ligar o chuveiro, sua família e seus vizinhos estão protegidos por um sistema técnico infalível.

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