Dra. Camila Prado dos Santos
Mestra em Direito; especialista em Direito Animal e Condominial;
consultora da revista Condomínio etc.
Fernando Ferreira
Médico-veterinário especialista em Saúde Pública; mestre em Medicina Veterinária e profissional especialista em animais sinantrópicos e peçonhentos.
A presença de morcegos em condomínios costuma despertar um sentimento de desconhecimento e temor. Para o síndico, essa situação exige o estrito cumprimento do ordenamento jurídico brasileiro. Reforçamos que a gestão de conflitos entre humanos e animais deve ser pautada pela coexistência ética e pela legalidade.
No Brasil, eles são protegidos pela Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998), cujo artigo 29 é taxativo: matar, perseguir, caçar ou utilizar espécimes da fauna silvestre sem permissão ou licença é crime.
O síndico que autoriza o uso de substâncias tóxicas ou o fechamento de frestas com animais ainda alojados expõe o condomínio a multas administrativas pesadas e a si mesmo a um processo criminal.
Ao se confirmar a existência de uma colônia de morcegos em uma edificação multifamiliar, o síndico deve contratar a consultoria de um médico-veterinário especialista no assunto. Esse profissional poderá orientar, executar o manejo técnico da colônia e adotar as medidas de segurança e de controle necessárias. Além disso, deve realizar as ações preventivas e corretivas nas edificações para impedir o retorno dos animais após a remoção. É fundamental ressaltar que, por se tratar de fauna silvestre brasileira, somente profissionais treinados e devidamente autorizados pelos órgãos competentes podem realizar tal manejo.
Ao avistar um animal caído ou em local indevido, siga estas orientações de segurança:
- Não toque no animal – morcegos podem ser portadores do vírus da raiva. Nunca os manipule diretamente, mesmo que pareçam mortos.
- Isole o animal – com cuidado e sem contato direto (use luvas grossas ou anteparos), tente isolá-lo, colocando um balde ou caixa sobre ele.
- Acione as autoridades – no Rio de Janeiro, entre em contato imediatamente com a Central 1746. Equipes especializadas farão o recolhimento seguro do animal para análise laboratorial.
- Proteja os pets – não deixe que nenhum cão ou gato se aproxime do morcego.
Embora a proteção animal seja um dever, o síndico também responde pela segurança e saúde dos condôminos, conforme o art. 1.348 do Código Civil. O acúmulo de guano (fezes) pode configurar uma situação de insalubridade.
O conflito resolve-se com o manejo ético. O desalojamento desses animais não deve ser visto como um ato de hostilidade, mas como uma medida de segurança mútua, desde que realizado sem ferir os espécimes.
Os órgãos de proteção animal realizam atendimento de emergência para análise de morcegos suspeitos que tiveram contato com humanos ou pets, visando ao controle da raiva. O síndico deve formalizar o chamado por meio da Central 1746 para resguardar o condomínio.
Parte da função do síndico é informar. Explicar que morcegos controlam a população de insetos e que a solução adotada respeita a lei ajuda a pacificar conflitos e evita que condôminos tomem medidas ilegais por conta própria.
Administrar um condomínio sob a ótica do direito animal é compreender que a nossa propriedade termina onde começa o direito à vida de outras espécies. O síndico moderno não é apenas um gestor de patrimônio, mas um guardião da legalidade e do meio ambiente. A solução definitiva para os morcegos não reside na violência, mas na engenharia preventiva e na vedação consciente.
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